2020… que ano!

2020 não foi fácil pra ninguém. Da noite pro dia tivemos que nos isolar. Em um tempo em que se valoriza a autenticidade, o despir das almas, o olhar para as vulnerabilidades e a queda das máscaras, tivemos justamente que vestir máscaras. Tivemos que aprender a ler olhos e a nos expressar por meio deles. 

Teve gente que perdeu pessoas queridas. Teve gente que perdeu o emprego. Teve gente que perdeu a esperança. Teve gente que perdeu a oportunidade de ficar calado e se mostrar líder. Teve gente que aprendeu uma forma nova de trabalhar. Teve gente que teve que trabalhar com os filhos. Teve criança com aula online. Teve professor dando aula online. Teve criança com saudade dos amigos. Teve criança com saudade dos avós. Teve saudade, muita saudade. Com cheiro de álcool em gel.

Tivemos que voltar a olhar pra dentro. Pra dentro de casa, pra dentro do casamento, pra dentro da família, pra dentro do trabalho. Pra dentro de nós mesmos. Tivemos a oportunidade de mergulhar. O que você encontrou nesse mergulho?

Tenho aprendido a olhar para minhas emoções e escutá-las com mais atenção. O sentir guia meus dias. Tenho aprendido a me perguntar quando acordo: como quero me sentir hoje?

Entendi que o hoje é o campo da minha existência. É nele que posso sentir, realizar, deixar minha mensagem pro mundo. É no hoje que eu posso agir.

Tive que fazer a última fotografia de uma pessoa que foi levada pela Covid-19 para ter clareza da grandiosidade do meu trabalho. Tive que ver gráficos assustadores para enxergar aquilo que a gente já sabe. A vida é efêmera. Passei a me relacionar com a fotografia de outra forma, a enxergá-la com outras lentes.

Precisei me assumir como empreendedora e diante de um cenário de distanciamento social, tive que me reinventar, criar, me movimentar. Aprendi a desenvolver projetos e também tive que aprender a ser resiliente e me despedir de alguns deles.

Nesse mergulho, encontrei minha criança. Abracei, acalmei, ouvi. Acolhi suas dores. A convidei para dançar. Dançamos, rimos, choramos. Só que percebi que ela não poderia ficar no comando.

Precisei crescer e aceitar que nem tudo vai acontecer só porque eu quero, ou do jeito que eu quero. Precisei constatar que minha agenda é limitada e que é o meu fazer de hoje que vai me aproximar do sonho de amanhã. Precisei fazer as pazes com aquilo que eu mais brigava em minha vida.

Depois de olhar para mim, chegou a hora de voltar meu olhar novamente para o outro. Fotografar beijos e abraços que agora ganharam um novo sentido. Um tempero a mais. Fazer o tempo parar e deixar aquele amor gravado. Torná-lo visível, palpável, tangível.

Precisei de ajuda para me conhecer mais um pouco. Às vezes precisamos de um olhar de fora para podermos enxergar aquilo que está guardadinho aqui dentro. Acordei, então, um lado meu que tanto amava, mas estava adormecido. Passei a considerar novos caminhos, novas possibilidades. Voltei a sonhar, mas entendendo que meus sonhos precisam estar dentro dos meus dias. Aprendi que autoconhecimento é processo, sem um fim em si mesmo. Cabe a mim dar as mãos a essa bagagem e convidá-la a ser guia em minha trilha. Posso dizer, talvez com muita ousadia, que encontrei uma grandeza que eu não sabia que tinha.

Estamos todos cansados, eu sei. Eu estou cansada e você também. Mas precisamos seguir em frente e olhar pra esse ano que está começando. Tomar um fôlego e mergulhar. Nadar e descobrir suas águas. O mundo não vai mudar na virada de 31 para 1 magicamente. O que pode mudar é a forma como nos relacionamos com ele. É o que está ao nosso alcance.

Desejo, de coração, que em 2021 você tenha encontros. Desses românticos, sabe? Cheios de interesse e curiosidade. Encontros com você mesmo. Com suas vulnerabilidades e potências. Desejo também paz e conforto a todas as famílias que sofreram perdas e estão vivenciando seus lutos.

Vamos pra 2021!

 

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2 respostas para “2020… que ano!”

  1. Luciano Batista disse:

    Que maravilha de texto! Que bom vc ter trazido para nós os reflexos de seu mergulho, reflexos esses que se amoldam a todos nós. Que aprendizados esse ano trouxe para todos! Que no ano que se avizinha nós possamos ter a felicidade de ler mais alguns dos seus textos, os quais são fotografias a serem guardadas no nosso íntimo. Feliz ano novo querida!

  2. Poxa… fico muito emocionada com essas palavras! No que depender de minha vontade, muitos textos virão. Com certeza! Um dos aprendizados que tive em 2020 foi o poder da escrita de tantas formas: como registro, como ferramenta terapêutica, como forma de me expressar, como forma de inspirar outras pessoas. Por que não?
    Feliz ano novo para todos nós! Que seja mais leve. <3

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