A noite em que a Jade nasceu {Fotografia de Parto}

Para falar sobre o dia em que a Jade nasceu, tenho que voltar no tempo. Alguns poucos anos. Lembro bem do dia em que fui visitar um casal para conversarmos sobre a fotografia do parto, ensaio de gestante, fotografia dos bebês assim que nascessem. Pois é… bebês. Tudo se encaminhava para um parto domiciliar de gêmeos. Depois de duas cesáreas! Juan e Fabi brincavam que pulariam de dois para quatro filhos. Que louco isso! Eu estava eufórica, pois era minha primeira experiência fotografando parto de gêmeos. Só não sabia ainda que naquele momento minha vida estava se cruzando com a de uma mulher que hoje, além de minha cliente, é minha amiga e parceira nos negócios. Uma mulher que admiro muito. Mulherão, com todas as letras.

Algum tempo depois do parto dos gêmeos, uma mensagem dizia que a quinta estava a caminho. Mais uma vez, o plano era de um parto domiciliar. Fui visita-la, dessa vez em uma casa nova. Faço questão de ir visitar minhas clientes de parto domiciliar, para conhecer a casa, olhar o espaço, como é a iluminação, e não ter chance de me perder no dia. Conversamos por muito tempo sem sentir. Acho que isso já é nosso. Agora era só esperar. Se aproximando do parto, uma diabetes gestacional forçou uma mudança de planos, de parto domiciliar para um parto hospitalar. Realmente não há controle. Partos são imprevisíveis.

Apesar de Fabi já estar muito incomodada no final da gravidez e torcendo para que a Jade chegasse antes das 40 semanas, a pequena quis ficar mais tempo. Não disse pra Fabi, mas talvez eu tenha uma parcela de culpa nisso. Quando se aproximava a data provável do parto da Jade, minha gatinha Ivete estava muito mal. Eu sabia que sua partida não ia demorar, o que de fato aconteceu em uma noite fria de São João. Cuidar dela doente e ver a minha pequenina morrer foi uma das experiências mais dolorosas da minha vida. Fiquei muito abalada com sua morte e nos primeiros dias sem ela, eu rezava para a Jade esperar só mais um pouquinho, pra tia Ana estar um pouco mais recuperada e dar o melhor de si em seu nascimento.

Fiquei pensando sobre o quanto é importante conhecermos nossas vulnerabilidades e identificar nossos limites. Percebermos o ponto em que algo poderá nos atrapalhar, ou por outro lado, poderá nos dar uma energia criativa diferente. Sim, a tristeza e até mesmo a raiva podem ser sentimentos muito poderosos, com capacidade de movimentar energias interessantes. Eu costumo conseguir me concentrar no trabalho e superar problemas de outras ordens, entretanto, a fotografia, pelo menos no meu jeito de vivenciá-la, é um processo muito subjetivo. Impossível deixar de lado aquilo que nos afeta. E que bom que é assim, pois é isso que permite que estejamos ali em cada fotografia. Só sei que a Jade foi um verdadeiro docinho e me deu uns dias e pude estar plena e dar o meu melhor, apesar de estar triste no meu mundinho.

Fazia muito frio naquela noite de domingo, como bem lembrou a Fabi em seu relato do parto. Foi feita uma indução, acupuntura, e quando as contrações ficaram mais fortes era o momento de eu ir para o hospital. Cheguei e encontrei a Fabi já na “Partolândia”, concentrada no seu corpo. Todo mundo empacotado de frio e ela morrendo de calor, tentando se entregar à dor de cada contração, como aliadas, esperando seu corpo se abrir para dar passagem à sua bebê. Massagem nas costas, agacha, rebola, respira, até chegar o momento de irmos para o centro obstétrico.

Poucas horas depois, a Jade nascia. Fabi na banqueta, com o apoio e amor de Juan, recebeu sua bebê, que nem podemos chamar de “pequena”, considerando que ela nasceu com quase cinco quilos! Pegou Jade com suas mãos e a trouxe para o melhor lugar que pode existir no mundo para um bebê, o colo de sua mãe. Aconchegada em sua mãe, Jade já nos deixava perceber o amor de menina que ela é. Menina doce e alegre, que veio trazendo transformações para sua família inteira. Dois meses depois, eu voltava na mesma casa em que visitei sua mãe, mas dessa vez para fotografar todos juntos, ainda conhecendo a Jade, e aprendendo a conviver em uma família maior. Ainda vieram festas de aniversário e outros ensaios e cada um terá seu cantinho especial aqui.

A impressão que tenho é que a mulher que conheci há alguns anos desabrochou, cresceu, se empoderou e hoje é outra. Outra mulher, outra mãe. Demonstra o brilho e a beleza de quem está se encontrando nos caminhos que tem percorrido. Tenho acompanhado os movimentos em sua vida e me sinto muito grata por tê-la como cliente, sempre confiando em meu olhar e valorizando as memórias que entrego de sua família, e como amiga, para um bom cappuccino com bolo de banana.

Espero ainda ter muitas oportunidades para retratar sua família, proporcionando às crianças a alegria de folhear álbuns com histórias em que elas são todas protagonistas.

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