As sete principais características que um fotógrafo de parto deve ter

#vidadefotografadeparto

O corpo vinha dando sinais há alguns dias. O bebê estava quase pronto. Cólicas e contrações esparsas anunciavam que o dia tão esperado, muitas vezes até temido, estava cada vez mais perto. A ansiedade é inegável, mas respirar lenta e profundamente ajudava muito. Não só a lidar com a ansiedade, mas também com a dor. Já era madrugada quando as contrações foram ficando mais próximas uma da outra. Ganhavam ritmo. A dor era intensa sim, mas também era muito bom ter um intervalo entre elas. Dava até pra cochilar e recuperar as forças. Chegaram a doula, a parteira e depois a fotógrafa. A massagem da doula era mágica. Ela usava um óleo com cheiro gostoso que aquecia a pele e fazia suas mãos deslizarem com mais facilidade. Quando a dor apertava muito, o chuveiro parecia a melhor opção. A água do chuveiro aliviava a dor, como se parte dela escorresse para longe. Sentir a água batendo nas costas era quase hipnótico. A essa altura a concentração no seu corpo e no trabalho de parto era intenso. Partolândia que dizem.  Tinha uma musiquinha suave no fundo, que junto com a luz de velas ajudava a formar essa atmosfera para receber seu bebê como sempre sonhou. O tempo já tinha virado algo desconhecido, imensurável. Até que se ouviu palavras que soaram como navalhas do clima de aconchego que se estabelecia. “Nossa… eu não sabia que demorava tanto! Dá pra acender a luz? Não consigo fazer nenhuma foto assim, só com velas.”

Dá para imaginar o que aconteceu com a concentração da mulher que estava em trabalho de parto? Essa historinha que contei é fictícia, mas baseada em fatos reais, em relatos que ouvi de amigas, de clientes. Infelizmente. Parto é um momento muito delicado e exige, a meu ver, algumas características por parte do fotógrafo.

Como já vimos nos artigos anteriores sobre fotografia de parto (recomendo que você leia o primeiro e o segundo artigos da série #vidadefotografadeparto, caso ainda não tenha lido, antes de seguir em frente), é comum, diante de uma área em crescimento, profissionais enxergarem a oportunidade e quererem entrar nesse mercado. Entretanto, é preciso que haja preparação. É preciso conhecer o tema do que vamos fotografar. É preciso minimizar os problemas que podem acontecer no dia do parto. Além disso, fotografia de parto exige certas habilidades e características por parte dos fotógrafos, de acordo com o que tenho observado em minhas próprias experiências, em trocas de figurinhas com outros colegas e até mesmo em relatos de clientes.

Habilidades e características do fotógrafo de parto

  1. Domínio do equipamento e conhecimento técnico

O primeiro ponto que acho importante observar é o domínio do próprio equipamento e conhecimento técnico para lidar com adversidades que podem acontecer durante o trabalho. O fotógrafo deve conhecer os limites de seu equipamento, fazendo com que o mesmo seja usado a seu favor. Deve ter agilidade no manuseio, fotometria, foco, pois as cenas vão acontecendo espontaneamente por se tratar de um tipo de fotografia de caráter documental. É comum, especialmente em partos hospitalares em que há um foco de luz mais intenso sobre a mesa de cirurgia (em cesáreas, normalmente), que haja muita diferença de luz, ainda mais se as demais luzes da sala estiverem apagadas. É preciso ter muito cuidado para que as fotos do nascimento, em especial a região onde está o bebê, não fique estourada ou superexposta, pois não é uma situação muito fácil de contornar na pós-produção.

  1. Olhar atento

 Ter o registro de emoções e boas sacadas pode ser o diferencial do seu trabalho. Além disso, alguns acontecimentos são rápidos e dinâmicos. O nascimento em si, por exemplo, é um momento que não espera e não tem volta. Então, não basta ter rapidez e habilidade para manusear o equipamento. O fotógrafo deve ter olhar atento e sensível, afinal de contas não adianta muito termos fotos tecnicamente perfeitas, mas sem emoção, sem mostrar um acontecimento interessante para aquela história que estamos contando.

  1. Discrição

A fotografia de parto requer muita discrição por parte do fotógrafo. Temos que entender que a mulher está em um processo muito íntimo, em que ela está sentindo dor, precisa se concentrar, pode estar com medo, está diante do desconhecido, mesmo que já tenha tido outros filhos. Cada parto é único! Nós não podemos distrai-la ou tirar sua concentração. Temos que ter empatia.  Pensem na historinha que contei no início desse artigo e se coloquem no lugar da mulher em trabalho de parto, que se desconcentrou por conta de uma interferência externa.

  1. O dom de ser invisível

Temos que nos passar por invisíveis, e tentar não chamar atenção. A fotografia de parto, como já disse, tem um caráter documental muito forte. Assim, cabe a nós nos adaptarmos às cenas, fotografando sem interferir no que está acontecendo, seja com relação a luz, posicionamento. Valem aqui algumas dicas:

  • Deixe o celular no silencioso
  • Se a câmera tiver modo silencioso (caso já não seja uma câmera silenciosa), faça esse ajuste
  • Evite conversar ou fazer barulho desnecessário
  • Não use flash e nem acenda luzes sem perguntar primeiro se incomodam
  1. Sensibilidade

O fotógrafo deve ter sensibilidade para escolher os melhores ângulos, de forma a não expor a mulher de maneira desnecessária. Deve ter também sensibilidade para saber o que fotografar e o que não fotografar, para saber a hora de deixar a mulher sozinha. Sensibilidade para soltar a câmera e dar a mão, se a cliente precisar. Sensibilidade para passar apoio e encorajamento, mesmo que apenas com o olhar. Sensibilidade para fotografar cenas emocionantes e que tenham valor sentimental para a família.

  1. Responsabilidade

Somando a todas as características já citadas, responsabilidade é um dos principais atributos que um fotógrafo de parto deve ter. Partos são imprevisíveis e podem acontecer a qualquer hora. E isso não é exclusividade de quem só trabalha com partos normais ou humanizados não, tá? Pode acontecer com aquela cliente que estava com cesárea agendada e entrou em trabalho de parto antes da data marcada. Já aconteceu comigo e pode acontecer com você. Temos que estar preparados para atender a família quando o trabalho de parto se iniciar. É importante nos sentirmos seguros da nossa capacidade técnica para o que vier. O friozinho na barriga é normal! Sinto em todos os partos que fotografo. Mas tenho segurança no conhecimento que venho adquirindo ao longo desses anos e me agarro nela para conseguir controlar as borboletas no estômago.

Devemos nos lembrar sempre de que estamos lidando com vidas, com sonhos, com expectativas. Se nos comprometemos, temos que fazer de tudo para comparecer ao local do parto em tempo hábil e darmos o melhor de nós em cada trabalho. Não podemos simplesmente deixar de ir fotografar um parto, a não ser que tenhamos uma razão forte para isso.

Eu trabalho com algumas colegas como fotógrafas backup para chamar caso eu realmente não possa ir ao parto ou não consiga chegar a tempo de fotografar. Isso para minimizar um problema, que ainda assim pode acontecer. Entretanto, para mim, essa opção é cogitada apenas em último caso. Não vou chamar uma fotógrafa backup só porque não quero sair de casa à noite, por exemplo, sem ter uma razão maior para isso. Se eu tiver uma viagem programada no período em que há probabilidade de acontecer o parto, aviso a cliente antes de fechar o contrato. Na minha concepção, minha cliente me contrata por algum motivo especial que notou em meu trabalho, na forma como lido com os partos, na maneira como conto as histórias. Como disse anteriormente, muitas vezes estamos lidando com sonhos. O comprometimento com a cliente é um dos pontos que vai diferenciar um fotógrafo de parto de um fotógrafo que faz alguns partos.

É importante que haja afinidade e cumplicidade entre o fotógrafo e a família, pois se trata de um momento muito delicado. Muitas intimidades e emoções afloram. Muitas histórias são compartilhadas. A família tem que ter plena confiança de que aquele profissional que está ali no parto não está julgando suas escolhas, vai agir de maneira discreta e ética, com sensibilidade, vai cuidar das imagens, não vai publicar nada sem sua autorização.

E não basta apenas a família ter confiança em meu trabalho e em minha forma de agir. É muito importante que a equipe também se sinta à vontade com minha presença.  As pessoas que fazem parte da equipe devem sentir que não serão expostas de maneira inadequada, que suas condutas não estão sendo julgadas ou avaliadas por nós. Todas as pessoas que estão presentes em um parto devem estar em harmonia. Estamos ali para fotografar, com a função de contar para nossa cliente a história do nascimento de seu bebê e devemos sempre estar muito atentos ao nosso papel.

Como tenho dito não somente nesse artigo, mas nos outros da série, trago aqui minhas impressões e experiências para compartilhar com você. Nem todo mundo trabalha dessa forma. Essa é a maneira que vejo que funciona pra mim e que está alinhada com meus princípios e valores. Antes de qualquer coisa, me proponho a ser uma fotógrafa humanizada, que tenta ao máximo se colocar no lugar da sua cliente e está ali para contar uma história da maneira mais sensível e artística possível, pensando sempre no impacto das fotos para a família, para o bebezinho que está nascendo e para as pessoas que acompanham o meu trabalho, caso a publicação daquelas fotos seja autorizada. Não podemos esquecer que as fotos que publicamos, os textos que escrevemos, alcançam outras pessoas, podendo tocar suas vidas. Mas esse já é assunto para outro café!

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E se você está procurando um profissional para fotografar seu parto, espero que esse artigo tenha ajudado. Como já disse, essas informações vêm sendo consolidadas com base em minha experiência. Não são uma regra, não são apenas essas características e também não é necessário que estejam todas presentes, mas tenho observado que são importantes pelos próprios relatos das clientes. Então, cabe a você cliente analisar o que é importante para você. 🙂

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