Caraminholas sobre fotografia de parto e o nascimento do Bento

Antes de falar sobre o nascimento do Bento, vou fazer umas considerações sobre fotografia de parto, sobre a forma como eu trabalho, pois algumas pessoas entram em contato comigo pedindo consultoria, informações e dicas nessa área. Quando uma grávida entra em contato comigo querendo que eu fotografe o parto, a gente conversa um pouco por e-mail e telefone, mas sempre gosto de marcar uma conversa pessoalmente antes de fecharmos o contrato. Fotografia de parto é um trabalho extremamente delicado, que envolve muitos detalhes que devem ser conversados com a família.

Partos são completamente imprevisíveis e as diferentes hipóteses que podem acontecer no dia devem ser abordadas e suas consequências esclarecidas. Explico como funciona o período de disponibilidade e atuação de profissional backup, se necessário. Explico o momento de me chamar, ou melhor, digo que não tenho marcos objetivos e mensuráveis da hora de me chamar. O melhor momento é uma decisão do casal e cada momento vai resultar em um trabalho mais ou menos completo. Falo sobre as implicações de chamar muito cedo ou muito tarde. Conversamos sobre como a luz afeta as fotos, sobre a interação com a equipe, sobre nudez, sobre a forma de me chamar, sobre o desenrolar do trabalho, sobre as dificuldades normalmente encontradas.  Mais do que essa parte prática e formal, a gente tem que olhar no olho, sentir se tem afinidade. Conversar, trocar experiências, contar nossas histórias. Expor nossos medos e expectativas. Perceber se a energia flui. Ninguém merece ficar sentindo dor e ainda ter que administrar uma pessoa, com a qual a energia não bateu, ali tirando fotos, não é verdade?

Poderia ficar romantizando, dizendo que fotografia é minha paixão e tal. Sim, é uma das minhas paixões, uma das coisas que me faz feliz, mas fotografia é o meu trabalho, paga minhas contas. Entretanto, não é porque é trabalho que tem que ser chato ou mecânico. Temos que rever nossas representações sociais de trabalho. 😉 Quero proporcionar algo para as pessoas que me contratam. Quero trazer emoção para suas vidas, possibilitar uma experiência diferente, permitir que suas histórias sejam registradas e perpetuadas no tempo. Quero passar bons momentos com essas pessoas. Quero trazer experiências para minha vida também. Quero que seja especial e faça sentido para nós. Para isso, não basta ter sensibilidade, técnica apurada, bom equipamento, capacidade de lidar com imprevistos, responsabilidade, disponibilidade. Temos que pensar também nessa afinidade, na importância do atendimento antes do parto para uma execução mais tranquila e satisfatória da cobertura do parto para ambas as partes.

Quando a Thalita entrou em contato comigo, expliquei sobre o funcionamento do trabalho e ela pareceu bastante decidida em fechar contrato. Entretanto, eu disse que seria importante a gente se encontrar pra conversar pessoalmente e ver todas essas questões que descrevi anteriormente. Combinamos, mas no dia aconteceu um imprevisto e não pudemos nos encontrar. O tempo passou e continuamos apenas nos falando por whatsapp. Eu queria muito conhecer aquela mulher que já tinha me dito que estava esperando o quarto bebê, me falado sobre a equipe, sobre como planejava o parto, mas sei como uma vida com três filhos e uma barriga crescente é corrida e acabei não insistindo no encontro olho no olho e deixando o caminho fluir. Não sei ao certo se foi quando a gente se adicionou no Instagram ou no Facebook, mas numa dessas inclusões nas redes sociais que vi que ela é uma blogueira celebridade nesse mundo da maternidade! Gente… como sou lerda!!! Eu e minha rotina multitarefas não-tem-tempo-pra-nada me deixando por fora do que rola no mundo. Ficou mais fácil conhecer um pouquinho sobre a mãe do Bernardo, do Tomás, da Nina e do Bento, que em breve estaria diante de minhas lentes e do meu olhar.

Thalita, mesmo com três cesáreas prévias, queria tentar um parto natural dessa vez. Para isso, esteve cercada por profissionais que não só acreditam que isso seja possível, como lutam para que o parto normal após as cesáreas aconteça dentro do que for seguro para mãe e bebê. Quando o casal opta por um parto natural, é muito importante que procure profissionais em quem tenha confiança e saiba que a cesárea acontecerá quando for realmente necessária. Já existem as preocupações, ansiedade, expectativas, medo, desconforto bem comuns do final de gravidez… Não precisa ter mais preocupação com relação à conduta da equipe, né?

Algumas semanas antes do nascimento, Bento já dava uns sinais e alarmes falsos. Quando Thalita mandava notícias dizendo que estava sentindo contrações doloridas e que iria à médica para avaliar, eu me preparava, checava o equipamento, verificava se o celular estava com volume mais alto e ficava aguardando. Apenas aguardando! Eu tenho a postura de não ficar pedindo notícias para a mulher o tempo inteiro. Coisa minha. Acho que isso aumenta a ansiedade, o que só atrapalha. Fiquei impressionada com alguns comentários das pessoas exigindo notícias dela nas redes sociais, se ela passasse uns dias sem postar uma foto. Tudo bem que a gente se envolve com as histórias de figuras públicas que admiramos, mas temos que refletir sobre o quanto a curiosidade pode ser invasiva. Um pouquinho de empatia e respeito ao momento do outro sempre caem bem!

Depois de alguns alarmes falsos, numa noite de terça-feira, por volta de 21h, Thalita manda notícias dizendo que está internada e que a médica iria avaliar. Digo que estou preparada, esperando eles me chamarem. Quando isso acontece, por mais que tenha verificado mil vezes, dou mais uma checada no equipamento. Separo uma roupa confortável, como alguma coisa e tento dormir nem que seja um breve cochilo, pois nunca sabemos como serão as próximas horas. Por volta de meia noite, se não me engano, a doula entrou em contato comigo me chamando, dizendo que já estavam no centro obstétrico. Em cerca de trinta minutos eu estava no hospital. As contrações eram bem doloridas e a dor persistia mesmo com uma pequena dose de analgesia. Nem sei dizer quanto tempo se passou no vai e vem das contrações. Thalita estava concentrada em seu corpo, sempre contando com as mãos de seu marido e de sua doula. De vez em quando a médica avaliava, verificava os batimentos do bebê e, em um determinado momento, após mais uma dose de analgesia, conversaram sobre a evolução do trabalho de parto e o casal diante de alguns fatores optou pela cesárea. Melhor ver aqui o relato de parto da Thalita, em que ela fala sobre como foi a experiência do nascimento do Bento. Em seu plano de parto, Thalita expressou suas vontades para que, se fosse necessária uma cesárea, acontecesse da maneira mais humanizada possível. Suas vontades foram atendidas.

Bento nasceu na madrugada do dia 1º de junho, foi para o colo de sua mãe, onde ficou por alguns minutos até que fosse levado para a salinha de avaliação de recém nascidos. O pediatra avaliou Bento bem rapidinho para que ele voltasse logo para perto de sua mãe. Ele nasceu enorme! Um meninão de 51 centímetros e 4,280 kg. Mamou com menos de uma hora de vida, como se nunca tivesse feito outra coisa na vida. Hoje está um bebê super fofo! Vejo pelas fotos e vídeos da Thalita na internet. 🙂

Bento_PARTO-9-1 Bento_PARTO-15-1 Bento_PARTO-16-1 Bento_PARTO-18-1 Bento_PARTO-20-1 Bento_PARTO-21-1 Bento_PARTO-23-1 Bento_PARTO-30-1 Bento_PARTO-42-1 Bento_PARTO-49-1 Bento_PARTO-60-1 Bento_PARTO-79-1 Bento_PARTO-83-1 Bento_PARTO-90-1 Bento_PARTO-94-1 Bento_PARTO-118-1 Bento_PARTO-119-1 Bento_PARTO-120-1 Bento_PARTO-125-1 Bento_PARTO-128-1 Bento_PARTO-131-1

Me emocionei vendo a Thalita emocionada. Espero ter possibilitado a essa família boas recordações por meio das fotografias. Espero que o Bento daqui a um tempo saiba um pouquinho sobre o dia de sua chegada por meio dessas fotos. Espero que as fotos mostrem para os irmãos do Bento, e demais familiares que não puderam estar por perto, como foi que tudo aconteceu. Espero ter proporcionado algo de especial a eles. 🙂

Sempre que volto de um parto, fico pensando no que aquela experiência me trouxe para enriquecer meu trabalho e minha vida. Uma das reflexões mais importantes foi com relação à invasão que fazemos na vida do outro, muitas vezes sem nem perceber que estamos invadindo ou ultrapassando o limite do carinho, por mera curiosidade ou ansiedade. Fico querendo notícias o tempo todo? Claro! Saber o que está acontecendo até me ajudaria muito no planejamento do dia, na reorganização de algumas atividades. Mas tenho que pensar naquele casal e no que eles estão passando, o que estão sentindo. Quando nos propomos a disseminar a humanização do parto também temos que ser profissionais mais humanos e empáticos. Temos que nos colocar no lugar do outro e estar sempre avaliando nossas atitudes. Se eu já adotava a postura de deixar o casal decidir quando me chamar, ficar esperando notícias sem ficar perguntando o tempo todo como as coisas estão, agora reforço ainda mais, abordando, por exemplo, o assunto em um post aqui no blog.

Expondo nosso modo de agir, podemos estimular a troca de ideias, inspirar outros profissionais. Diante da demanda por informações e consultoria que recebo frequentemente, tenho pensado em escrever mais sobre fotografia e fazer encontros presenciais de Café e Bate-papo. É uma vontade antiga, mas que agora está mais forte. Assim podemos juntar pequenos grupos para conversar sobre vários aspectos de fotografia de parto, ou até mesmo de fotografia básica… um dia de muita informação e troca de figurinhas, com direito a comidinhas gostosas do Tem Laranja na Cozinha. O que vocês acham? Tipo uma mini consultoria em grupo… Não sei. Só caraminholas por enquanto. Me escrevam se tiverem interesse: contato@anapaulabatista.com.br. Quem sabe tiro esse plano antigo do papel?

***

Obstetra: Rachel Reis

Doula: Érica de Paula

Hospital Santa Lúcia, Brasília/DF



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *