Hynnieh, a menina que traz felicidade {parto domiciliar}

A vida é uma verdadeira sucessão de lições. Sempre tento crer, por mais difícil que pareça, que todas as situações pelas quais passamos, sejam boas ou ruins, nos ensinam algo. E esse aprendizado faz parte da nossa evolução nessa jornada.

A fotografia de partos, especialmente, me traz muitos desafios. E, consequentemente, muito aprendizado. Cada parto me rende uma lição ao menos, que vou juntando às demais para tentar crescer profissionalmente e me tornar uma pessoa melhor. Fotografar partos consiste em um trabalho bastante delicado e que envolve questões bem sérias e talvez muito menos românticas do que se pensa. Envolve muita intimidade, cumplicidade, discrição, sensibilidade, empatia, respeito, discernimento de quando fotografar e quando sair. A todo tempo minha subjetividade vem à tona e me vejo em questionamentos eternos e filosóficos, dignos de mesa de boteco, com meus valores, princípios, sentimentos. Com meu eu.

Tinha acabado de chegar em um bar para encontrar uns amigos. Como estava em disponibilidade para parto, fui de suco de laranja. Junto com o suco, chegou também uma mensagem no celular dizendo que Hynnieh estava querendo ser fotografada. Trocando em miúdos, trabalho de parto! Abreviei meu encontro com os amigos e não demorei pra ir pra casa. Precisava descansar, pois em parto só sabemos a hora que chegamos, mas não temos ideia de que horas vamos voltar. Estava tudo pronto e organizado. Só restava esperar.

Passou a noite inteira, a manhã seguinte e passava da hora do almoço quando falei com Joana, a doula. Ela me disse que o trabalho de parto estava bem lento e que a gestante não queria ninguém mais em casa. Mas pediu pra eu ficar preparada que ela me chamaria na hora que achasse mais adequada. Um pouco depois, ligou me chamando, mas já advertiu logo que eu chegasse praticamente sem ninguém me notar.

Nem o interfone eu toquei. Entrei em casa e fiquei um bom tempo na cozinha. Parada. Fazendo minhas preces. Tentando me concentrar. Optei por começar com uma lente que me possibilitasse ficar mais distante, sem invadir muito o espaço do casal. O tempo foi passando e fui me aproximando, conforme sentia que me era permitido. Evitava ficar no campo de visão da gestante e não trocava uma palavra com ninguém.

Em paralelo ao meu universo e ao turbilhão de coisas que se passavam em minha alma, uma mulher vivia seu turbilhão de hormônios, juntamente com medo, ansiedade, cansaço, enquanto enfrentava cada uma das contrações. Durante o trabalho de parto, muitas histórias afloram. É comum fantasmas adormecidos despertarem. Mas do mesmo lugar de onde eles saem, vem uma força impressionante. Força, garra, vontade, fé, superação. A luz que dá caminho para a felicidade. E energia para umas boas reboladas na zumba! 😉

Foi lindo ser cúmplice de tudo isso. Ser mais um olhar de encorajamento, acolhimento e confiança. Ser o sorriso que diz que vai dar tudo certo. Mesmo sem nenhuma palavra.

Hynnieh nasceu às 22h12 e, assim como reza o significado do seu nome, trouxe felicidade. Mais felicidade. Sua passagem para esse lado de fora foi especial e transformadora. Para seus pais e para mim também.

Voltei pra casa com uma lição valiosa. E sobre mim mesma. Enxerguei algumas sombras, fraquezas e vaidades. Mexendo na ferida, de coração aberto, pude mudar algumas posturas e perspectivas sobre meu próprio trabalho. Inclusive, objetivamente, alterando algumas cláusulas do contrato. Percebi que minha presença não é fundamental. Os bebês não precisam de mim pra nascer. A mulher não precisa de mim pra parir. Não querer minha presença não tem nada pessoal contra mim. E percebi também que não ser fundamental não quer dizer que não tenha valor. Muito pelo contrário. Minha arte não é item de checklist. E pra mim vale muito mais contar essas histórias de amor porque as pessoas querem do que porque precisam.

Mesmo a Naisa estando um pouco resistente no seu momento de dor e cansaço, eles concordaram que eu fosse. Quiseram as fotos, o filme e todo o tesouro agregado. E fiquei muito feliz por isso. Hynnieh vai poder ver a mãe forte e guerreira que ela tem. Essa família tem imagens que ajudam a reconstruir a memória. Poderão, por meio das fotos e do filme, reviver a emoção de um dia tão marcante. E, mais uma vez, meu coração se enche de alegria. Alegria de missão cumprida, e com amor!

Hynnieh – a menina que traz felicidade from Ana Paula Batista on Vimeo.

Pena que nesse parto eu ainda não tinha tripé… Senão tinha deixado a câmera filmando e caído no ritmo da zumba também! Mas tudo bem… dei minhas requebradas enquanto editava o filme. 🙂

Equipe:

Enfermeira obstetra – Melissa Martinelli, da Humaniza Parto Natural e Nascimento Planejado

Doula – Joana Andrade

Fotografia e filme – euzinha!



Uma resposta para “Hynnieh, a menina que traz felicidade {parto domiciliar}”

  1. […] dia do ensaio tudo flui naturalmente. Fotografei o casal esperando a primeira filha. Fotografei o parto da pequena Hynnieh e agora chegou a vez de fotografá-los esperando a Safira. Foi uma delícia ver a Hynnieh toda […]

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