Nossa última foto {despedida da Ivete}

Nem só de contar histórias felizes vive um fotógrafo, afinal de contas nem só de dias felizes é feita nossa vida. A fotografia tem, entre tantos outros, esse caráter de documentar momentos, sejam eles como forem. As fotografias trazem memórias e despertam sentimentos diferentes de acordo com nosso contexto da época. Cada um lê uma fotografia conforme está sua vida naquele momento. Uma mesma foto pode despertar tristeza ou vazio em um momento e saudade algum tempo depois. Nos meus estudos sobre projetos fotográficos no decorrer dos últimos oito anos, encontrei trabalhos muito sensíveis sobre momentos dolorosos. Esse tipo de trabalho desperta muito minha atenção, talvez por serem projetos incomuns e nem sempre provocar boa aceitação por parte de quem vê. Há quem pense que fotografar o processo de adoecimento e morte de uma pessoa, por exemplo, só vai trazer lembranças dolorosas de sofrimento. Eu vejo por outro lado. De uma sensibilidade extrema, esses trabalhos me mostraram superação, cuidado e amor. Entre vários que já vi, esse sempre me vem à mente quando falo sobre o assunto e acho que ilustra bem sobre o que quero escrever hoje: marido fotografa a luta de sua esposa contra o câncer de mama. Quanta sensibilidade! Toda vez que vejo essas fotos fico imaginando como será que o marido se sente ao vê-las. E se não as tivesse feito?

O ponto é que a vida é um sopro. Aqueles que amamos, aqueles com quem convivemos, podem simplesmente não estar mais perto de nós por diversos motivos. Daí vem a importância (se você achar que ter memórias em fotografias é importante, claro!) de se fotografar nosso dia-a-dia. De documentar a nossa vida como ela é, nos dias felizes e nos dias tristes. Recentemente, passei por momentos muito difíceis, que conto com mais detalhes nessa carta que escrevi. Sugiro a leitura dessa carta, para melhor entendimento do que vem pela frente. Pegue um café e, se você for manteiga derretida como eu, um lencinho.

Quem me acompanha pelo Instagram já deve ter visto muitas fotos de uma gatinha fofa da carinha brava. Ela fazia parte dos meus dias. Quando comecei a fotografar, cerca de oito anos atrás, ela já nos acompanhava havia alguns anos. Minha gatinha Ivete, aos quinze anos, adoeceu e há alguns dias nos deixou.

Assim que ela adoeceu, pensei em documentar nossa rotina com seu tratamento. Na hora, achava que era besteira, sei lá. Na verdade, tinha muita esperança de que logo ela ficaria boa. Nos trinta e quatro dias de quando descobrimos que adoeceu até a sua morte muita coisa aconteceu. Foram muitos alto e baixos. Cada dia era um dia, com pequenas alegrias, com pequenas conquistas, com cansaço, com choro.  Não parei para pensar no valor desse registro. E posso dizer com toda a sinceridade que me arrependi. Fiz algumas fotos no início, mas poderia ter feito mais. Se eu tivesse me lembrado desse projeto antes, talvez tivesse repensado e fotografado mais. Entretanto, assim que ela entregou os pontos e que percebemos que em pouco tempo ela não estaria entre nós, resolvi fazer umas fotos com ela. Eu e a Lu fotografamos nossa despedida da nossa pequena.

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A falta dela ainda me dói muito. Mais do que imaginei que doeria. Choro praticamente todos os dias e a vejo em todos os cantos da casa. Foram muitos anos de parceria, companheirismo e carinho diários. Mas não me canso de ver essas fotos. Elas não me trazem tristeza. Claro que estou triste por tudo o que aconteceu, mas não é o sentimento que me desperta quando as vejo. Pelo contrário, elas me mostram o quanto fomos amor e aconchego pra Ivete em seus últimos dias. Dois dias depois dessas fotos, ela nos deixou. E hoje, para deixar a lembrança dela ainda mais viva em nossos corações, temos muitas fotografias.

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Ela já doente. Depois de uma crise de choro no trabalho, resolvi fazer essa foto para mostrar que ela teria colo e amor até o fim de seus dias.

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Mais quietinha, dormindo mais, e sempre por perto.

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Companheirinha até na hora de montar palestra

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Nossa última foto, poucas horas antes de sua morte.

Ainda bem que sempre a fotografei em casa. Pelo menos depois que tive acesso a câmera fotográfica. Quanta coisa aconteceu nesses últimos quinze anos! Quando ela foi morar conosco, eu nem tinha câmera, muito menos sonhava em ser fotógrafa. As fotos são recheadas de lembranças da vida feliz que ela teve conosco. Fica, juntamente com a saudade, a gratidão por nossos caminhos terem se cruzado e pela oportunidade de ter vivenciado um amor tão puro. Dessa vez conto uma história de final triste, mas que foi muito bonita. Compartilho esse momento íntimo e pessoal com vocês para que percebam o tanto que as fotos que fazemos de nossa própria vida podem ser valiosas. Fotografem mais aqueles que amam. Fotografem mais.

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Ela fazia sucesso com a criançada, mas a recíproca nem sempre era verdadeira.

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Sentirei (aliás, já sinto) muito a sua falta, minha pequena! Amo você!

 



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