O nascimento da Sofia

Dessa vez o telefone tocou mais cedo: 2h30 da manhã. Era a doula. Havia alguns dias em que a Rê sentia contrações doloridas e estava perdendo o tampão. Então, já fazia uns dias que eu ia dormir cedo, com equipamento todo preparado pra um possível chamado a qualquer hora do dia ou da noite. E o dia, que começou na noite, chegou!

Dia esperado e tão desejado pela Rê que sonhava com a chegada da sua filha. Ela sonhava com um parto natural na água. Durante a gravidez, ela e seu marido (que vou aqui chamar de Dê pra rimar com Rê) começaram a participar de um grupo de gestantes coordenado pela doula que contrataram e sua parceira, professora de yoga e doula também. E foi nessa Roda de Gestantes, que fotografo desde o primeiro encontro, que os conheci fora do facebook.

O empoderamento do casal era nítido e crescente a cada encontro. Eles estavam ali pra buscar informações, pra buscar uma rede de apoio e poder, assim, propiciar à sua filha um nascimento mais respeitoso, sem intervenções desnecessárias, seja na mãe ou na bebê.  A piadinha sobre seguir a enfermeira jamais será esquecida pelos presentes, né Dê? Até hoje me pego dando boas risadas quando lembro!

Enfim… às 3h da manhã eu já estava no caminho. Nunca vi a EPTG tão vazia! No percurso, pensamentos positivos, boas vibrações e concentração pro trabalho que estava por começar.

Cheguei na casa da Rê e fui recebida, muito bem recebida por sinal, pela Sam e pela Clarinha, as irmãzinhas mais velhas da Sofia. As irmãs da Rê também estavam lá, acampadas na sala. Duas no sofá, cobertas por um edredom, e uma pelo facetime, querendo saber tudo o que estava acontecendo. Acho que esse edredom nunca abrigou tanta expectativa, felicidade e ansiedade numa noite só como foi nessa.

Fiquei ali conversando com as meninas por uns minutos e só depois fui cumprimentar a Rê. O Dê disse que talvez ela não estivesse com bom humor pra fotos, mas que ela estava no chuveiro e eu poderia ir lá pra dar um “oi”. Disse ainda que eu não seria atacada por um shampoo voador. Fui falar com a Rê, ainda pensando na história do shampoo, e encontro, pra variar, uma lady! Como pode uma mulher ser ainda tão doce mesmo com tanta dor? A propósito, a Rê é uma das pessoas mais doces que já conheci na minha vida!

A luz disponível vinha de duas ou três velinhas. Somente. Condição desafiadora para fotos e praticamente impossível para vídeo. A Rê até perguntou se eu queria que acendesse a luz do banheiro e minha resposta estava na ponta da língua: Não! De jeito nenhum! Eu sabia que a luz iria incomodá-la e no meu trabalho eu prezo pelo bem estar e segurança da família. Minha função é ser praticamente invisível, pra não atrapalhar a concentração de ninguém. Arrumamos um abajur, não muito forte, que foi meu aliado.

Por sugestão da Taiza – a doula , a Rê mudava de posição pra que a Sofia girasse pro melhor lado. Óleos, massagens e muito carinho. Tudo isso pra que a Rê aguentasse o máximo de tempo possível em casa, antes de ir pra maternidade. O Dê cuidou da trilha sonora. Excelente! Teve hora que escapou um heavy metal, mas que em poucos segundos foi substituído por um light metal, pra bebê.

O dia estava amanhecendo e fui rapidinho pegar a Lu e deixá-la na escola. Da escola da Lu, direto pra maternidade.

Encontrei a Rê na sala de pré-parto. Uma enfermeira insistia pra que ela fosse examinada por um médico plantonista, mas a doula, como uma leoa, tendo em vista que o Dê resolvia a papelada burocrática do hospital, dizia que ela seria examinada por seu obstetra que já estava chegando. Segurando nas barras de uma cama de hospital, rebolando, recebendo massagens da doula e de seu marido, a Rê ia obedecendo aos sinais do seu corpo. Agacha e sente vontade de fazer força. E foi assim que a bolsa estourou. Foi emocionante! Sofia ia dando mais um sinal de que estava chegando.

Enquanto doula e marido se revezavam nas providências burocráticas ou simplesmente práticas, até eu fazia massagem na Rê, tentando aliviar um pouco suas dores. E ela continuava uma lady… “obrigada, Ana!”.

Seu obstetra chegou e a examinou. Oito centímetros de dilatação. Liberou a sala de parto humanizado da maternidade, onde a Rê já implorava por analgesia. Algumas horas se passaram e a Rê já estava exausta. Taiza dizia coisas lindas, que me fizeram chorar umas duas vezes, pelo que me lembro. Mas depois de tentar o que estava ao alcance, a notícia que só veio trazer dor mais tarde: teria que ser feita uma cesárea.

Por volta de 15h, ao som de U2, nascia a pequena Sofia. O cordão umbilical não foi imediatamente cortado e o pediatra foi bem compreensivo e deixou a bebê uns minutinhos com a mãe antes de fazer os procedimentos de protocolo. A Rê pôde fazer carinho na sua pequena e dizer “Oi Sofia! Sou sua mãe!”, dando-lhe boas vindas. O pediatra ainda perguntou ao pai se era pra pingar colírio e quis saber o que dizia o plano de parto. Foi a primeira vez que vi isso entre a dezena de cesáreas que já havia fotografado.

Uns dias depois, voltei pra fotografar a Sofia em sua casa, mamando, fazendo xixi na mamãe enquanto a Sam e a Clarinha tentavam disfarçar pra pegar os brinquedos do seu quarto. Estavam todos muito felizes e se adaptando à nova vida. Com a Sofia nasceram dois pais corujas. Conversando com a Rê, percebi que a dor da cesárea veio depois. Não no corpo somente, mas também na alma. Nada como o tempo pra ir clareando as ideias e acalmando os corações, amenizando as dores. Hoje a Rê consegue lidar com seu “não-parto”, como ela mesma diz em seu relato (veja o relato no blog da Taiza Nóbrega), e o toma como experiência para a próxima gestação. Do futuro eu não sei. Só sei que a Sofia é uma mocinha muito fofa e amada. Não sabemos ainda se ela vai curtir rock ou sertanejo, né Dê? Mas sabemos que no que depender de seus pais, ela será uma menina muito feliz!

Em breve, teremos essa história contada em vídeo. 🙂



6 respostas para “O nascimento da Sofia”

  1. Renata Riquette Manes disse:

    Ana, me emocionei com o seu relato de um dos dias mais emocionantes da minha vida! Muito obrigada por ter participado e registrado com fotos tão maravilhosas e fidedignas. Não poderíamos ter escolhido pessoa melhor para estar conosco. Seu olhar é único! Beijos

  2. Fernanda disse:

    Que historia marcante! Ana Paula, como eu queria que voce morasse aqui perto de mim, pra que voce pudesse fotografar meu proximo parto. Voce fotografa muito bem, mas e pelo seu comprometimento com o bem estar da gestante que eu escolheria voce. Fora a sua criatividade (quando pensou no abajur) e habilidade pra escrever! Parabens pelo seu trabalho!

  3. Fernanda disse:

    Ops. Esqueci de dizer que sou uma das irmas da Re, a que mora nos EUA.

  4. Marcela Varella Zinsly disse:

    Que linda história, que lindas fotos…chorei de cabo a rabo…quanta emoção em palavras e fotos. Parabéns pelo seu belíssimo trabalho e se vc estivesse disponível aqui em Piracicaba eu te contrataria.

  5. Viviane disse:

    Parabéns pelo lindo trabalho tanto da mamãe como de todos que participaram…….
    Eu desejei muito isto tudo mas minha pressão não permitiu.
    Me emocionei com as fotos do inicio ao fim…….
    Que Deus abençoe esta linda família!!!!!!!

    Quanto as fotos não tem nada mais comovente, cada detalhe, de grande sensibilidade, de grandíssimo bom gosto e delicadeza.
    Belíssimo trabalho!!!!!! Parabéns!!!!!!!!!!!!!!!!! 😉

  6. […] semanas depois de fotografar o nascimento da Sofia (nesse post aqui), voltei pra fotografar um pouquinho da sua adaptação ao mundo fora da […]

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