O valor da fotografia – o que considerar para estipular seu preço

Depois de ler esse artigo sobre o valor da fotografia, acredito que fique bem claro que algumas fotografias podem ter valor imensurável e que isso é absolutamente subjetivo, variando de acordo com a relação que estabelecemos com determinada imagem e com o nosso momento de vida. Esse é o valor significando apreço. Entretanto, profissionais e clientes de serviços e produtos fotográficos precisam conversar sobre valores significando preço. Então, fotógrafo que está na dúvida de como precificar o seu trabalho, esse texto pode te ajudar. Você cliente que contrata ou pretende contratar um serviço de fotografia, esse texto pode te mostrar algumas considerações que profissionais fazem ao estabelecer seus valores e que talvez você nem fizesse ideia. Você que nem é fotógrafo e nem é cliente ou potencial cliente, pelo menos no momento, mas gosta de entender sobre coisas diversas e ter assunto para puxar conversa, esse texto também pode servir pra você. Chega mais! Puxe uma cadeira e pegue um café. Se quiser, pode até pegar uma fatia de bolo pra acompanhar. 😉

Antes de começar a desenvolver melhor o tema, quero deixar claro que escrevo esse artigo com base na minha experiência e nos relatos que ouço de outros colegas. Dessa forma, essas são as questões que eu considero na hora de estabelecer o valor do meu trabalho, sem a menor pretensão de encerrar o assunto.

Sobre serviços

Não sei se é uma questão cultural aqui do Brasil, e se em outros lugares é diferente. A impressão que eu tenho pelo que ouço por aí no dia a dia é que muitas pessoas têm dificuldade em valorizar ou pagar por serviços. Ou pelo menos têm mais dificuldade em pagar por serviços do que em pagar por produtos. E isso acontece em diferentes áreas.

Isso tudo por uma massa fresca que é feita só de farinha, ovos e molho de tomate? Esse absurdo para levar só dez minutos para instalar esse equipamento? Jura que uma arte gráfica que levou menos de um dia pra fazer custa isso tudo? Nossa… esse valor por uma/duas/quatro/x horas apertando um botão de uma máquina fotográfica?

Acontece que um serviço, normalmente, envolve a solução de um problema. Alguém acumulou conhecimento e experiência, além de outros fatores, para fazer aquilo que não sabemos, não queremos ou não podemos fazer, mesmo que apenas naquele momento.

Vamos ao macarrão de massa fresca com molho de tomate. Massa fresca não é simplesmente a mistura de farinha com ovos. Tem que ter uma proporção certa. Tem que sovar. A pessoa que está fazendo tem que entender dos paranauê de ponto da massa, do tempo de descanso, do tempo de cozimento, senão coloca o prato a perder. Talvez o processo envolva equipamento (com seus custos) para abrir a massa ou o muque de alguém com habilidade e força para abri-la no rolo (também com seus custos). Para o molho, deve-se saber escolher os melhores tomates para tal finalidade. E não basta ter os melhores tomates se não souber temperar o molho. Enfim… foi só um exemplo bem simplista, sem sequer considerar os custos com o trabalho das pessoas, aluguel, luz, gás, impostos, louças, embalagens, marketing, para mostrar que um prato de macarrão com molho de tomate não envolve apenas os seus ingredientes. E vou além… mesmo que a gente saiba fazer todos esses processos com perfeição, não é todo dia que estamos dispostos e a fim de ter todo esse trabalho de horas para poder comer um belo prato de massa fresca.

Fotos: Tem Laranja na Cozinha (ou seja, eu no meu projeto de culinária)

Outro dia li em algum site na internet ou em alguma rede social – faz tempo e realmente não vou me lembrar a fonte – uma frase de um designer gráfico que mudou meu pensamento com relação a serviços. Não vou lembrar as palavras com exatidão, mas a ideia é a seguinte: o valor do meu trabalho não é medido pelo tempo em que eu fiz a peça, mas sim pelo que eu tive que estudar, me dedicar e aprender para desenvolver essa peça apenas nesse tempo. Em outras palavras, o valor não é pelos dez minutos em que um profissional faz uma arte, mas sim por toda sua bagagem para que faça essa arte em apenas dez minutos.

Não estou defendendo preços abusivos, mas apenas mostrando que devemos considerar um outro lado antes de achar o valor de qualquer serviço absurdo. Tudo nessa vida tem mais de um lado e não devemos nos esquecer disso.

A fotografia

Vamos trazer essa discussão para a fotografia. A fotografia comercial é um serviço que vai resultar em produtos, que podem ser arquivos digitais, fotos impressas, álbuns, fotolivros, quadros, entre outros. Assim, ela não é nem só um meio e nem só um fim. O serviço não basta e o produto não existe sem um serviço.  Fotografia profissional envolve custos diversos, o conhecimento/experiência/sensibilidade/olhar de alguém, tempo. Então, primeiro vamos quebrar alguns mitos.

“Fotografia digital não tem custo! Não é igual na época do filme que se pagava pelo filme e pela revelação.”

Sim, muita coisa mudou com a transição da fotografia analógica para a digital. Quando se tem um número limitado de poses em um filme, é comum pensar melhor a respeito das fotos. Mas com câmera digital é diferente… podemos fotografar à vontade, sem limites, certo? Não! Câmeras digitais têm vida útil. Cada clique é um passo para a morte do obturador. Pois é… aquela câmera profissional que custa milhares de reais, sem falar nas lentes, não dura para sempre. É comum fotógrafos profissionais terem que trocar suas câmeras a cada dois ou três anos, dependendo do seu uso e do modelo do equipamento.

Além do custo com a câmera em si, precisamos de lentes, que muitas vezes são mais caras do que as próprias câmeras, cartões de memória, baterias extra, itens de iluminação para quem trabalha com iluminação artificial, bolsas e mochilas apropriadas, tripés. Depois de anos para conseguir um equipamento satisfatório, muitos de nós talvez já tenhamos gastado o valor de um carro. Então, é considerável e altamente recomendável fazer um seguro do equipamento. Fotógrafos são visados e, infelizmente, é bem comum termos notícias de colegas que foram assaltados enquanto trabalhavam.

O mercado exige e a tecnologia nos oferece a possibilidade de fazer fotografias em resolução cada vez mais alta. Para processar essas imagens, precisamos de bons computadores, com softwares específicos, monitores calibrados e infinitos HDs externos para armazenar os gigabytes que vão se acumulando em nossa carreira.

Fora os custos dos equipamentos em si, temos que pensar nos custos envolvidos com a manutenção. Para maior durabilidade, câmeras e lentes devem passar por revisão. É bem comum deixarmos centenas de reais a cada visita a assistência técnica. Temos ainda internet, energia elétrica, gasolina, telefone, entre outros custos. E olha que nem falei sobre capacitação!

“Vou receber esse valor x por uma hora de ensaio. É bastante por uma hora de trabalho!”

Uma hora de fotografia não quer dizer que aquele trabalho leva só uma hora. Levamos tempo atendendo clientes, pessoalmente, por telefone ou e-mail, fazendo contatos com fornecedores, pesquisando referências para aquele trabalho, preparando o equipamento, fotografando, descarregando os arquivos, fazendo backup, editando o trabalho, gravando pendrives, DVDs ou enviando pela internet, enviando arquivos para impressão, diagramando álbuns, preparando embalagem, realizando entrega. Será que aquele valor x foi só por uma hora de ensaio mesmo?

Aquele clichê “tempo é dinheiro” é bem verdadeiro. Além do tempo envolvido objetivamente com cada trabalho, precisamos de tempo (e din din!) para estudar, frequentar cursos, visitar museus, exposições, nos inspirar, procurar parceiros, conhecer novos fornecedores… Adivinhem para que? Para melhorar o nosso trabalho! Isso sem falar no tempo para lazer, vida pessoal e social, afinal de contas também somos gente. Nosso tempo é valioso e deve ser considerado na hora de precificarmos nosso serviço.

“Tenho uma câmera boa. Já estou pronto para trabalhar com fotografia.”

Equipamento é importante, mas é só uma ferramenta. Se me entregarem tela, pinceis e tintas da melhor qualidade para que eu possa pintar um quadro, talvez só saiam bonecos de palito. Acreditem. Então, de nada adianta ter as melhores ferramentas e utensílios se eu não sei o que fazer com os mesmos. Na fotografia, mais uma vez, não é diferente. Conhecimento, técnica, olhar, sensibilidade são o que fazem um cliente nos procurar e não o equipamento que usamos para fazer nossas fotos. É comum fotógrafos fazerem cursos, comprarem livros, participarem de workshops, oficinas, congressos, em suas cidades, em outras cidades, em outros países. Precisamos sempre nos atualizar, nos reciclar, desenvolver nosso olhar. Para isso precisamos de tempo e de dinheiro, que devemos tirar, pelo menos teoricamente, do nosso trabalho.

 

“Fotografar é muito divertido. Amo muito o que faço. Não sei se devo cobrar por isso.”

A decisão se devemos cobrar ou não, o quanto devemos cobrar por cada trabalho é muito particular e trataremos desse ponto mais à frente. Aqui quero quebrar aquela ideia pejorativa de que trabalho tem que ser necessariamente algo chato. Ou de que não é certo sermos remunerados por algo prazeroso. Mesmo sendo legal e divertido, para muitos de nós, fotografia é trabalho. Temos que quebrar esse mito e com ele a culpa por cobrar por um trabalho que amamos fazer. Precisamos pagar nossas contas. Não consigo pagar os boletos que chegam todos os meses em minha casa com amor. Quem me dera!

Além disso, temos que quebrar em nós mesmos aquelas barreiras com pagamentos por serviços que já mencionei lá no comecinho. Se a gente não valoriza os serviços de outros profissionais, porque vão valorizar o nosso?

Vamos juntar todas as pontas. Fotografia envolve custos de diversas ordens, tempo, conhecimento, arte. É uma prestação de serviço que vai resolver o problema de alguém, usando todas essas ferramentas. Acontece que vai além desses fatores mais objetivos. Estamos entregando recordações e não apenas arquivos, pedaços de papel, quadros emoldurados. Lidamos com sentimentos, com expectativas, com momentos que não voltam. Criamos sentimentos, o que agrega valor ao nosso trabalho.

Visualizem a seguinte situação. Um casal vai se casar. Os noivos planejam todos os detalhes, do jeitinho deles. Escolhem onde será a festa, a cerimônia, como será a decoração, as flores, se haverá banda ou não, os doces, o bolo, a comida, as lembrancinhas, os bem casados. Aquele é um dos dias mais importantes de suas vidas. Virão familiares de outras cidades, amigos que lhe são caros. A daminha e o pajem… que lindos, mesmo que um tenha entrado emburradinho na cerimônia. E o buquê? Escolhido a dedo e disputado entre as amigas que querem ser a próxima noiva. O vestido! Como a noiva ficou deslumbrante nele! Quantas pessoas se emocionaram ao ver a entrada da noiva? O casal tinha duas opções: contratar um profissional para fotografar e registrar todos os detalhes, os sorrisos, as expressões emocionadas, as lágrimas, os olhares de amor e cumplicidade entre os noivos, a farra dos amigos na pista de dança; ou entregar uma câmera para um parente (que não é fotógrafo) e economizar essa grana, afinal de contas já tinham gasto bastante dinheiro. Eles escolheram a segunda alternativa. A cerimônia passou, a festa passou, alguns se divertiram, talvez outros não. Todos voltaram pra suas casas. A comida acabou. A bebida acabou. A música parou de tocar. As flores murcharam. E as fotos? Bem… a pessoa que ficou responsável pelas fotos não sabia operar a câmera e não saiu nada! Nada! Essa história é verídica e aconteceu na família de um amigo meu.

Tá… e agora, quanto eu devo cobrar pelo meu trabalho?

Essa é uma questão muito pessoal e não existem regras ou fórmulas pra isso. Na verdade, existem boas diretrizes, como esse post do Dicas de Fotografia, que é bem completo e tem até uma planilha para cálculo do quanto precisamos ganhar por mês para custear nossas despesas. Cada um tem suas necessidades, seu estilo de vida. Cada um define aquilo que é importante para si. E mesmo que as necessidades sejam numericamente as mesmas, cada um tem uma escolha de qual caminho prefere percorrer: fazer quatro ensaios/eventos por mês a 1000 cada para ganhar 4000 ou fazer dez ensaios/eventos a 400 cada para ganhar os mesmos 4000 mensais, por exemplo. Não vou entrar no mérito do quanto cada um deve cobrar por um trabalho, o quanto cada um pode ou quer trabalhar por mês. O que eu acho importante que você entenda depois desse textão é que esses hipotéticos 4000 não são lucro. Será que eles pagam as despesas pessoais, os custos do nosso trabalho, nosso lazer, nossos investimentos, plano de saúde, previdência ou quaisquer outras coisas que sejam importantes pra gente (lembrando que essa lista é muito pessoal e consiste em uma questão de prioridades… o que é prioridade pra uma pessoa, não é para outra) ou será que estamos pagando pra trabalhar? Os custos de serviços são mesmo difíceis de se medir, mas eles existem. Acreditem!

Meu objetivo aqui não é ensinar ou determinar o quanto cada fotógrafo vai cobrar por seu trabalho. Seria muita pretensão da minha parte! Meu objetivo é apontar para alguns fatores que devemos nos atentar, talvez até antes de iniciarmos o nosso negócio, para que o mesmo seja sustentável. Para que saibamos avaliar o quanto é justo cobrar por cada trabalho, tendo em vista que se trata de um serviço (= resolução de problema) de caráter artístico e que envolve tempo, conhecimento e muitos custos, mesmo que por vezes isso nos pareça impalpável. Para que possamos valorizar os serviços de outros profissionais, sejam nossos colegas fotógrafos ou não.

Bem… espero ter ajudado de alguma forma, mesmo que sejam considerações muito pessoais e subjetivas. E se você tiver mais alguma ideia para acrescentar sobre esse assunto, escreva aqui nos comentários! Esse é um assunto que dá pano pra manga e esse artigo foi só o começo. Vamos trocar figurinhas e fortalecer nosso mercado. Juntos somos mais fortes!

Facebook Comments



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *