Sertões | Diário de Bordo | Minhas Origens

Já tem um tempo que estou ensaiando esse post, mas queria fazer com calma, quando aliviassem as obrigações. Tá! Aí não sairia nunca! Então, resolvi fazer uma pausa pra editar essas fotos e relembrar momentos muito especiais e, claro, mostrá-las a vocês.

Em julho fui contratada por minha mãe (isso mesmo! olha que cliente especial…) para uma missão sobre a qual não posso falar ainda. Parece coisa de filme, né? Mas não… Vamos ao que dá pra contar e mostrar.

Uma das partes dessa missão era fazer umas fotos de lugares especiais para a família, onde minha avó e seus irmãos foram criados. Isso implicou em uma viagem ao interior da Bahia, pra onde já costumo ir pra visitar meus familiares, só que com uma esticadinha, mais especificamente para o sertão baiano. Adorei! Já tinha muito tempo que eu planejava visitar esses lugares carregados de história. Da minha história, inclusive. Claro que eu não podia deixar de levar a Lu comigo, pois se tem uma coisa que eu tento implementar aqui em casa é a valorização da família. Nossa família é enorme e muito unida. Fui criada tendo primos de segundo grau como irmãos. E cultivo isso aqui com a Lu.

Vocês já estiveram na casa onde viveram seus bisavós? E no quarto onde sua avó nasceu? Visitar aquelas roças foi uma experiência muito rica. Eu olhava praquelas paredes de barro, imaginando as brincadeiras entre minha avó e seus nove irmãos, o sofrimento que já passaram, o trabalho pesado, as trouxas de roupa levadas na cabeça por quilômetros até o riacho, as latas de água que dele eram trazidas, as festas de São João no terreiro em volta de uma fogueira. Podia não ter energia elétrica, nem telefone, nem automóvel, veja lá outros avanços que temos hoje em dia na cidade, mas era um lar cheio de amor. Passou um filme de quase um século na minha cabeça. Minha avó completou noventa anos na semana passada. E foi (quiçá ainda é) um pouquinho mãe de cada um de seus nove irmãos.

Visitamos também outros dois lugares. Um era a roça onde viveu um tio da minha avó, lugar que era muito especial para eles. Lugar onde viviam vários primos. Logo comecei a imaginar as farras da meninada, os passeios de domingo. Outro lugar foi uma outra roça onde eles moraram na adolescência. Minha avó que é a mais velha, já era casada e já tinha tido filhos. Isso mesmo… conheci uma das casas onde minha mãe passou parte da sua infância. Casa que foi construída pelas mãos do querido tio Zé, que hoje já não se encontra mais materialmente entre nós.

Essas roças não pertencem mais à nossa família. Outras famílias se formaram e foram felizes por lá. Sofreram e ainda sofrem com a seca que tanto prejudica a colheita e a produção animal. Uns nasceram e outros morreram. E como não é nada de se estranhar pelos costumes locais, lá mesmo foram enterrados.

O que mais me impressionou foi o tanto que fomos bem recebidos em cada um desses lares. Entre café e avoador (biscoito comum na região) muitas histórias e lembranças brotavam. Quanta hospitalidade! Quanta simplicidade! Quanta humildade! Por um instante pensei nos vizinhos que passam por mim na escada do meu prédio e nem sequer respondem a meus cumprimentos diários. Veja lá saberem meu nome! Já é querer demais. E ali, no coração do sertão baiano, onde havia chegado energia elétrica há um mês, eu estava entre pessoas que conheciam meus avós, tios-avós e bisavós, pelas histórias que seus ascendentes contavam. Não os conheciam pessoalmente mas os respeitavam pelas pessoas boas que foram (e ainda são os que estão vivos).

Posso dizer que em dois dias viajei no tempo e pensei demais em minha vida, no que realmente importa, em quem realmente importa. E venho remoendo esses pensamentos até hoje. E espero remoê-los pelo resto de minha vida. Quero conhecer outros lugares, morro de vontade de conhecer outros países, mas essa viagem à minha história, levando a Lu comigo ainda por cima, não teve preço!

E vamos às fotos! Só pra vocês sentirem as texturas do sertão e um pouquinho de tudo isso que eu falei.

Essa é uma plantação de palma. A palma é usada pra alimentar o gado na seca. Mas não é só o gado que come não… Já é costume da região o cortado de palma, refogadinho. Eu adoro!!!

Mandacaru, típico de regiões secas.

Algodãozinho teimoso, que brotou sozinho.

Detalhes da cerca que meu tio-avô fez.

E no caminho tinha um bar. Bar que já trouxe alegria a alguém e hoje está fechado.

E também tinha uma capela.

Paramos na casa de uma parente de meus avós. Vejam só um das paredes.

E onde são assados os bolos. Quantas delícias já não saíram desse forno?

Olha a Lu com a mão na massa. Ou melhor, com a mão no pilão. Você compra fubá já no saquinho no supermercado, né? Pois é…

Chão de sertão.

E olha só quem eu encontrei… uma menininha fofa que no começo tava tímida, mas foi se agradando em posar pra mim. E eu que já não gosto de fotografar crianças, me esbaldei!

Seguindo adiante, encontramos até casinha de João de Barro.

Essa cerca já é da Toca, lugar onde minha avó e seus irmãos nasceram e viveram por um bom tempo.

Essa é a casa do tio da minha avó.

E essa é a Lagoa Nova. Costumava ser cheia.

Essa é a casa onde moravam meus bisavós já com os filhos mais crescidinhos. Aqui minha mãe viveu um período da infância.

Na pequena cidade Lagoa Real… A cidade tem esse nome por causa da grande lagoa que… cadê a lagoa? Completamente seca!

A Lu se divertindo.

E eu!

Bem… é isso! Nessas imagens carrego um pouquinho de minha história, de minhas origens. Pra você que é guerreiro (a) e chegou ao fim do longo post, meu “muito obrigada” pela atenção. Para alguns pode ser algo sem sentido, loucura talvez, mas pra mim conhecer isso tudo é precioso! Garanto que foi uma experiência e tanto!



31 respostas para “Sertões | Diário de Bordo | Minhas Origens”

  1. Estupidamente lindo, extremamente sensível… vc foi demais neste trab! Parabéns ! Bjoo

  2. Gisela disse:

    Nossa Aninha,fiquei imaginando o dia-a-dia desse povo sofrido!!!

  3. LuMenezes disse:

    Ana, que lindas estas fotos!!!!! Dignas de exposição… retrata não só a história de sua família mas, a realidade do nosso país!
    Parabéns!!!!!!
    Adorei as fotos, por sua originalidade e realidade!
    Beijos!!!!!!

  4. Josie disse:

    que delícia ver minha região retratada por vc, aninha.
    cada foto mais linda que a outra, mostrando a realidade do sertão baiano, do povo sofrido das roças com as secas e falta de recursos.
    mas quer saber? lá tem gente mais feliz do que muitos por aí…E a receptividade? Incomparável, né mesmo?
    lindo trabalho. quero ver mais 🙂
    beijinhos, muitos!

  5. Camilla disse:

    Espetáculos de fotos.. sentimentos e olhar!!! Ana, cada dia mais aprendo contigo! LIndo demais.. me faltam palavras! Parabéns por tudo.. beijos!

  6. Denise Vilasboas disse:

    Popi, lindíssimo esse post…as fotos estão maravilhosas, verdadeiras poesias. Espero que toda a nossa família veja esse post…aposto que vai rolar algumas lágrimas!!!
    Parabéns mais uma vez!!! Sou sua SUPER FÃ!!!
    Beijosss…

  7. Nelson Neto disse:

    Ana, lindo documentario. Riqueza de detalhes.

  8. José Gomes disse:

    Dizer o quê?… Essas fotos são de tirar o fôlego! Pra quem conhece essa realidade, não há como não se emocionar. Mais uma, vez suas fotos estão maravilhosas! Parabéns!

  9. Sabe quando você passeia por um lugar e sente toda a energia que a imagem carrega em seus pixels.
    Pois é. Tô me sentindo assim. Do telhado da casa. A bota usada.

    Incrível. Mesmo!

  10. Bruno disse:

    Nossa, Ana, que fotos lindas.
    Parabéns!

  11. Nane Ferreira disse:

    Eu conheço um pouco da vida de gente sofrida nas roças, mas daqui de São Paulo. É realmente tudo isso q vc descreveu…a simplicidade das pessoas do local, o respeito que tem por todos é algo que não costumamos ter na cidade grande….eu amo a vida simples do interior e amei as fotos…parabens

  12. Rafael disse:

    Ana,

    Adoro fotos “documentarísticas”, as que você fez estão ótimas. Mas não é isso o que mais conta. Sempre penso que o que realmente é importante são as pessoas, suas histórias e o que delas brota.

    Tenho a impressão que a vida no interior do Brasil é sempre associada ao sofrimento, à penúria, à seca… Não enchergo assim. Não enchergo somente isso.

    Meus ancestrais viveram em condições muito similares a estas retratadas por você e obviamente sofreram com as intempéries e com as dificuldades impostas por este tipo de região, seja o sertão ou a caatinga. Minha família originalmente era composta de caiçaras, pela parte dos meus pais, e de marchantes, pela parte da minha mãe. O que eu noto é que tudo o que meus avós, e os avós dos meus avós, passaram não tornou todos pessoas amarguradas com a vida, deprimidas ou menos felizes do que poderiam ser. Muito pelo contrário.

    O povo nordestino, e digo isso por ser descendente direto deste, carrega consigo uma enorme dose de humanidade, respeito à família, força, temperança, fraternidade, solidariedade, e outros tantos valores perdidos pelas pessoas nessas bandas de cá. O nosso mundinho citadino é muito mais cruel e desumano que o da “roça”.

    Resgatar valores e vivenciar experiências fora do nosso quadradinho contribui enormemente para nos tornar pessoas melhores. O sentimento trazido no seu texto e as fotos retratam boa parcela disso.

    Se tiver a oportunidade farei o mesmo.

    Rafael

  13. rafael jaccoud disse:

    Adoro fotos e relatos de viagem! muito bacana as fotos, especialmente os detalhes que vc captou!
    O Brasil é mto rico em crianças bonitas!! vc e essa menina tiveram sorte de se encontrar…

    bj

  14. Marina Lomar disse:

    Que delícia de fotos!!
    Muito bom fotografar nossas viagens! Ainda mais assim…revivendo as coisas!
    Parabéns, linda!!! 🙂

    Bjs

  15. Juliana Costa disse:

    Fiquei encantada, Popi! Encantada! =~
    Parabéns pelo post e pelas fotos. Estão lindíssimas!
    Beijos.

  16. Cássia disse:

    Popi, que belíssimo trabalho!!! Você está se superando cada vez mais, pois há sentimento em cada palavra e muito mais em cada imagem. Como sabemos qual o verdadeiro sentido da palavra FAMÍLIA, é uma emoção muito grande saber um pouco mais das nossas origens. Amei… bjs,

  17. Dani disse:

    Super lindo isso!!!

  18. Lembrei da minha infancia, acordar com os peos da fazenda do meu tio, pra tocar boiada no pantanal, curar bichera nos bezerros e tirar leite cedinho… amei! LIndas fotos, lindos registros…

  19. Pedro Henrique disse:

    Popi, parabéns pelo post! Belíssimo! Como é bom poder saber cada dia mais das minhas origens! Tudo isso que você retratou ai deveria ser exposto para que outras pessoas entendam o verdadeiro sentido da FAMÍLIA e como ela é importante na vida de cada um.
    Um Beijo.

  20. Mariane disse:

    Popi,

    É emocionante ver nosso sertão assim. Acho que só quem vive aqui consegue sentir a beleza dessa realidade, mas você conseguiu retratar isso lindamente. Tenho muito orgulho dessa terra e de nosso povo corajoso e alegre. Parabéns pelo trabalho!!

  21. Lindas fotos!! Me lembrou quando na minha infancia eu ia pra Bahia passar uns dias na casa dos avos de um amigo meu, a minha mente lembrou até do cheirinho da roça. Sinto falta de um passeio assim.Parabéns!

  22. Luciana Aith disse:

    A-M-E-I Aninha!
    Eu fico profundamente tocada com essas vivências.
    Já tive a oportunidade de conhecer algumas roças (no Rio de Janeiro) e é realmente uma experiência transformadora.
    Outra coisa: sou maluca em ir atrás de origens! Tenho histórias fantásticas na família!
    Por isso amei, amei muito!
    PARABÉNS!
    Emocionante 🙂
    E as fotos estão lindíssimas!
    Beijos

  23. Eduardo disse:

    Oi Ana.

    Ótimas fotos! Você conseguiu mostrar muito bem os detalhes da beleza deste lugar.

    Parabéns!

  24. Pedro Noronha disse:

    Ana, eu fiquei maravilhado com as fotos, com a ideia e com a emoção que senti ao percorrer esse lugar através das suas fotos.

    JOB PERFEITO! Tudo feito com amor e uma dose de habilidade nasce sucesso.

  25. Paula Marcili disse:

    Lindo registro xará…sim, de nascimento eu sou Ana Paula tbém 😀
    Amei as fotos.
    Sinceramente acho que o teu caminho passa por aí…fotografia autoral , fotos de crianças…
    Aliás, de todas as imagens, a que para mim carrega mais emoção é a da menininha de franja em tom sépia…tá olhando pra alma da gente!
    Gostei muito desse post…parabéns 😉

  26. Andreia disse:

    amei essas fotos nossa!!!encantada!!!

  27. Você vai adorar é o próximo post, amiga!

  28. Eita! Já tô esperando….posta logo!

  29. Publicado! Corre lá pra ver. Daqui a pouco coloco o link aqui. 🙂

  30. Geeeeent! Coisa linda! Amei!
    Depois eu volto pra comentar lá. Aquilo tá lindo demais!

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