Um presente para as crianças {ensaio de família}

Eu moro em uma casa que tem um tapete colorido bem grande, onde posso espalhar meus brinquedos e livros. Gosto de ouvir a voz da minha mãe quando conta as histórias. Acho engraçado o jeito como ela faz a voz dos bichinhos e caio na risada.

Espalho meus brinquedos pela sala. Tenho brinquedo de montar. Dá para encaixar e montar umas coisas bem legais. Tenho patinete também, mas minha mãe deixa eu brincar com ele quando descemos para onde tem calçada e muitas árvores. Ah… e a Peppa! Como eu amo! Ela também é de encaixar e cabe certinho em minhas mãos.

Temos um gatinho bem fofo. O Jon Snow, mas também escuto minha mãe chama-lo de Jon Jon. Ele foge quando chego perto. Ei! Volta aqui, Jon Jon! Não sei por quê ele foge. Só quero brincar e fazer carinho, puxando seus pelos. Às vezes gosto de me deitar na cama dele. É tão macia e quentinha! Ele adora a mamãe. E eu também. Ela brinca muito comigo. Cuida de mim e fica preocupada se estou de casaco quando está ventando. Me aperta e me beija o tempo todo. Faz cócegas e me olha de um jeito que eu nunca vou querer esquecer. Ela parece feliz quando eu estou rindo. Adoro quando ela toca músicas pra mim e me leva para passear. Até levamos meu patinete no passeio, mas eu gosto mesmo é do colo da minha mãe e de quando ela me coloca para voar.

Tentei ver um pedacinho do seu mundo por seus olhos, com base no tempinho que vivenciamos juntos. Não é fácil olhar sob a perspectiva de um menino de dois anos de idade com olhos de gente grande, mas é um exercício muito interessante de se fazer. Aguça minha imaginação, me colocando em um lugar muito diferente do que estou acostumada. Tento me ver com dois anos de idade, forço a memória e não me lembro de nada. Só sei que tinha o cabelo bem curtinho por causa de uma foto ou outra. Fotos que me lembram das histórias que minha mãe contava, do motivo do meu cabelo estar tão curto. Como meu cabelo era muito e muito cacheado, eu dava muito trabalho para deixar pentear. Todos os dias era um chororô. Não queria deixar desembaraçar de jeito nenhum. Então, ela cortou bem curtinho. Joãozinho, como falam. Meu pai não gostou muito quando chegou em casa e não viu mais os meus cachos. Basta uma foto para me trazer toda essa história, o que mostra que as histórias transbordam do retangulozinho de uma fotografia. Ali tem muito mais do que o que estamos vendo com os olhos. Tem ainda aquilo que ouvimos, que vivenciamos com outros sentidos.

Não sei se daqui a uns anos o Luís Felipe vai se lembrar dessa época. De uma coisa eu tenho certeza – e esse é um dos porquês de eu fotografar famílias… Ele vai ver essas fotos e vai sentir nelas o amor que sua mãe tem por ele. É o sentimento que pula de cada uma delas, que percebemos no jeito como ela o olha, no cuidado que tem com ele, no jeito como o beija e cheira. É o sentimento que eu vi, senti e quis deixar registrado pra eles.

A minha cliente normalmente é a mãe, mas não consigo disfarçar que fotografo pensando nas crianças. Fotografo para que elas possam acessar histórias de tempos dos quais não se lembram. Que possam perceber as relações, as conexões, os sentimentos que as cercavam. Para que percebam o cuidado que foi dedicado a elas.

Luís Felipe, querido, espero que essas fotos te façam brotar amor e aconchego em seu coraçãozinho. Que você as veja como um presente da sua mãe para você e queira carrega-las contigo para onde for.

Com carinho,

Tia Ana.

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